Criatividade e sabores na culinária das Yabás do subúrbio carioca

Por Adelaide Chao*

 

A gastronomia carioca é um atrativo de alto valor turístico. Madureira, lugar naturalmente efervescente do subúrbio carioca, oferece uma culinária de bairro, marcante para a identidade da cidade do Rio de Janeiro. Apropriando-se das tradições e da história cultural, desde a formação do subúrbio até o enredo de personalidades icônicas da música popular brasileira, os bailes de charme, as escolas de samba e as manifestações de jongo, cozinheiras “de mão cheia” saíram de seus quintais e levaram os almoços de domingo de suas cozinhas para a rua.

 

Desde 2008, a Feira das Yabás é um evento de gastronomia e música, que reúne no espaço público da rua, na Praça Paulo da Portela, 16 barracas que oferecem o melhor da culinária de subúrbio carioca. A comida de subúrbio, conceituada pelos frequentadores, é uma comida bastante farta, feita para muitas pessoas, com qualidade, e que remete à memória familiar, festejada. Muitas vezes chamada “comida de vó”, a feira oferece pratos como feijoada, cozido, tripa lombeira, jiló frito, carne seca com abóbora, macarrão com carne assada, bolinho de feijoada, doce de abóbora e tantos outros quitutes.

 

De origem iorubana (dialeto africano), o termo yabá (iabá, aiabá ou oiá) significa “rainha”, “mãe”, “senhora idosa”, “aquela que acolhe e alimenta seus filhos”. As Yabás são mulheres tradicionais da comunidade de Madureira e, em sua maioria, descendentes de personalidades que representam a identidade cultural carioca. Em um grupo de 16 barracas, encontramos as yabás Selma Candeia (filha de Mestre Candeia Filho), Janaína e Vera de Jesus (netas de Clementina de Jesus), Tia Surica (quituteira famosa da Portela), Tia Nira (filha de mestre Jaburu, ritmista da Portela e peixeiro mais famoso do bairro), Dona Neném e Aurea Maria (mãe e filha, integrantes da Velha Guarda da Portela e parentes dos fundadores da escola de samba), e tantas outras mulheres que trazem para suas barracas memórias de família, a recriação de pratos famosos e a história de seus antepassados.

 

Além dos quitutes, a Feira das Yabás apresenta em suas edições shows de artistas novos e consagrados nas tantas manifestações culturais que caracterizam o subúrbio. Idealizada por Marquinhos de Oswaldo Cruz, sambista e compositor, a Feira tem o objetivo de oferecer gastronomia e música como recursos da cultura e da cidadania, uma sociabilidade revitalizada no espaço público que integra, comunica, enaltece os usos da cidade e aponta as representações da comensalidade na identidade carioca.

 

A cada edição da Feira, os espaços criativos de consumo se reinventam. As barracas mantêm a tradição e apresentam novidades culinárias, além de se comercializar artesanato – em tempos de crise, uma alternativa econômica para a maioria das yabás.

 

A importância de vivenciar eventos culturais, a exemplo da Feira das Yabás, colabora para o imaginário da cidade, a preservação da memória e as transformações da identidade carioca.

 

* Mestre e doutoranda em Comunicação pela UERJ. Tem MBA em Marketing pela ESPM-Rio. Pesquisa a culinária de subúrbio carioca há mais de 5 anos e desenvolve pesquisas sobre as relações da cidade com a alimentação, a cultura e a comunicação.

 

Imagem: Brasil 247

4 comentários em “Criatividade e sabores na culinária das Yabás do subúrbio carioca”

  1. Essas feiras existem há muito tempo ,na Pça XV, em São Cristóvão, Ipanema a prefeitura favorece e depois desfavorece,essas feiras oferecem culturas diferentes de pratos típicos de outros lugares,muitos vão e gostam e viram fregueses. As vistorias existem igual aos bares e botecos e todos comem e muitos gostam!

  2. Tenho um interesse especial pela Gastronomia afro -brasileira, estou iniciando no terreno. Voce teria alguns textos para minha orientação?
    Parabéns pelo seu trabalho.

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