Resolver a violência no Rio de Janeiro demanda soluções criativas

Por Isabella Vasconcellos*

 

Não foram poucos os questionamentos acerca da intervenção na segurança do Estado do Rio de Janeiro. Alguns caracterizaram a decisão como uma grande jogada populista do governo federal. Outros reclamaram do fato de o titular do projeto ser um militar e não um civil.

 

Questionamentos à parte, o assunto é grave. E exige soluções criativas.

 

Usando o recurso da analogia, quando o ser humano sente dor em alguma parte do corpo, a atitude imediata é fazer uso de um analgésico ou até um antibiótico. A intervenção corresponde ao remédio que tenta aliviar as dores de forma mais rápida dos moradores do Rio. Em seguida, é preciso identificar as causas das dores para que elas não se repitam.

 

Mas agora, como Leo Branco muito bem caracterizou em “A violência é um problema real e urgente” (Exame, 7/3/18), é hora de amenizar a dor que, para alguns parentes e amigos de pessoas que sofreram com ela, é intensa.

 

As previsões de especialistas indicam um orçamento necessário de mais de R$ 5 bilhões por ano para atender as necessidades mais urgentes. Esse investimento inclui novas tecnologias para gerar mais inteligência para a segurança, mais equipamentos, mais policiais, mais presídios que hoje têm uma população 63% superior à sua capacidade.

 

Isso provavelmente vai gerar mais prisões que funcionam hoje como “fábricas do crime”. Na Malásia, foi criado o Programa de Reabilitação Comunitária (PRC), que, em conjunto com os Ministérios da Educação e Agricultura, oferecem aos pequenos delinquentes, nos terrenos ociosos das bases militares, capacitação especializada em criação de peixes e produção agrícola e são remunerados pela venda dos produtos. A eles é oferecido o contato regular com seus familiares em alojamentos próximos, para que possam permanecer por mais tempo nesse processo de recuperação até que sejam encaminhados aos serviços de recolocação do Ministério de Recursos Humanos. Com isso, a taxa de reincidência de pequenos infratores caiu 90%.

 

Se vai dar certo ou não essa intervenção, ainda não sabemos, mas as perguntas são “Por quanto tempo?”, “Quando acabar, como será?”,  “Os bandidos voltarão às ruas?”

 

Onde estão as medidas de médio e longo prazo que garantirão a redução perene da violência no Rio?

 

Em dezembro de 2017, foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) o orçamento de 2018 do Rio de Janeiro, que prevê um gasto de R$ 7,5 bilhões em Educação, um pouco mais que os R$ 5 bilhões necessários para combater a violência decorrente da falta de educação e oportunidades para muitos moradores.

 

O Rio de Janeiro tem hoje dois milhões de moradores nas favelas, que, juntas, têm uma população maior do que capitais como Manaus, Recife, Curitiba e Porto Alegre.

 

Faltam as alternativas de educação criativa, com metodologias que encantam, que conduzem à empregabilidade para os moradores dessas comunidades. Enquanto isso, o tráfico de drogas aparece como uma alternativa – talvez a única – para os jovens de baixa renda, muitos deles vítimas de violência doméstica.

 

E o círculo vicioso se renova. As empresas fecham sua operação no estado do Rio de Janeiro depois de perderem bilhões com roubos de carga e serviço de segurança privada. Novos empregos são extintos, incentivando ainda mais a violência.

 

Mas fica a pergunta: Quem vai resolver as causas da violência? Baixo nível educacional da população, investimento insuficiente na educação, poucas ofertas de emprego e baixos salários.

 

Enquanto isso, não tenhamos dúvidas, as eleições se aproximam, e o combate á violência certamente será o principal assunto das campanhas.

 

* Pesquisadora do Laboratório de Cidades Criativas.

 

Imagem: Causa Operária

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